Tarô (ou tarot) é um daqueles assuntos em que todo mundo tem uma opinião pronta. Para uns, é sabedoria ancestral que revela o destino. Para outros, é pura enganação. A resposta mais honesta é menos dramática e mais interessante: depende do que você chama de “verdade”.
Como fatos históricos, muitas das histórias que se contam sobre o tarô são mitos. Como ferramenta de adivinhação, não há evidência científica de que as cartas prevejam o futuro. Mas como linguagem de imagens para pensar a própria vida, o tarô tem um valor real — e é desse jeito que o estudamos aqui no DarkPinup Arcana.
Verdade ou mito: o resumo
A ideia surgiu em 1781, sem nenhuma prova. O tarô nasceu na Itália do século XV.
A teoria é do século XIX. Não há registro de ciganos usando cartas para adivinhação antes do século XX.
As primeiras cartas eram usadas num jogo de vazas, que ainda é jogado em partes da Europa.
Os poucos estudos controlados não encontraram efeito além do acaso e de mecanismos psicológicos conhecidos.
Na prática moderna, ela é lida como fim de ciclo e transformação, e não como previsão de morte.
É uma superstição moderna, sem base em nenhuma tradição antiga.
Pesquisas com pessoas que usam as cartas para autoconhecimento relatam novas perspectivas e mais clareza.
Leitura de tarô se aprende com estudo e prática. Intuição ajuda, mas não é um poder reservado a poucos.
De onde vem o tarô de verdade
As primeiras cartas de tarô aparecem no norte da Itália, por volta de 1440, nas cortes de cidades como Milão, Ferrara e Florença. Eram chamadas de trionfi (“triunfos”) e acrescentavam ao baralho comum uma série de cartas ilustradas — os futuros arcanos maiores — e o Louco. Serviam para um jogo de cartas, como o bridge serve hoje. O tarô Visconti-Sforza, guardado na Morgan Library, é um dos mais antigos que sobreviveram.

O mito egípcio
Em 1781, o pastor e estudioso francês Antoine Court de Gébelin escreveu que o tarô seria um antigo livro egípcio de sabedoria secreta, disfarçado de jogo. Ele não apresentou nenhuma prova — os hieróglifos nem tinham sido decifrados ainda —, mas a ideia pegou. Logo depois, o cartomante parisiense Etteilla criou o primeiro baralho feito para adivinhação e começou a difundir o uso das cartas para ler a sorte. A revista The Skeptic resume essa história, baseada no trabalho do historiador Michael Dummett.
Dummett, que estudou a história do tarô por décadas, não encontrou evidência de uso divinatório significativo antes do fim do século XVIII. Ele chamou a história ocultista das cartas de uma das campanhas de propaganda mais bem-sucedidas já feitas. Veja o verbete sobre a história do tarô.
O mito cigano
No século XIX, autores franceses como Jean-Alexandre Vaillant passaram a afirmar que os povos ciganos (romani) tinham trazido o tarô para a Europa. Também não há base para isso: as cartas já existiam na Itália antes, e praticamente não há registro de ciganos usando cartas para adivinhação antes do século XX. O verbete sobre a leitura de tarô traz essa história.
Por que isso importa? O mito do “tarô cigano” ajudou a reforçar um estereótipo antigo: o de que o povo romani vive de enganar os outros com a leitura da sorte. Pinturas como a de Caravaggio, no topo deste artigo, mostram como esse estereótipo era comum na Europa. Contar a história certa também é uma forma de respeito.
O que a ciência diz sobre as leituras
Esta é a parte que muita gente prefere evitar, mas vale encarar com tranquilidade: não existe evidência científica de que o tarô preveja o futuro ou revele informações que a pessoa não poderia saber de outra forma. Os estudos sobre o assunto são poucos e pequenos, mas apontam na mesma direção.
O efeito Barnum
No fim dos anos 1940, o psicólogo Bertram Forer deu a 39 estudantes um “perfil de personalidade individual” baseado num teste. Na verdade, todos receberam o mesmo texto, tirado de um livro de astrologia de banca. Em média, os estudantes deram nota 4,3 de 5 para a precisão do perfil. Frases como “você tem grande necessidade de ser querida e admirada” parecem pessoais, mas servem para quase todo mundo. O fenômeno ficou conhecido como efeito Barnum. Veja o verbete sobre o efeito Barnum.
A leitura fria
“Leitura fria” é o nome de um conjunto de técnicas para parecer que se sabe muito sobre alguém: observar roupa, idade e linguagem corporal, fazer afirmações gerais e seguir o que provoca reação. Quem faz isso nem sempre age de má-fé — muitas vezes é só atenção a sinais que todos damos sem perceber. Veja o verbete sobre leitura fria.
Os estudos com tarô
- Susan Blackmore (1983) testou se as pessoas reconheciam a própria leitura de tarô entre as de outros participantes. Só o primeiro de três experimentos teve resultado significativo, e houve dúvidas sobre o método; nos seguintes, os participantes não identificaram a própria leitura.
- Itai Ivtzan e Christopher French (2004), da Universidade de Londres, compararam, com 30 estudantes, uma leitura feita com as cartas escolhidas pela pessoa e outra feita com cartas aleatórias. Os participantes não deram notas diferentes para as duas. Quem acreditava no tarô deu notas mais altas para ambas. Veja o estudo.
Os resultados desses dois estudos estão resumidos na dissertação de Gigi Hofer (Universidade de Victoria, 2009). Uma revisão de Ivtzan publicada no Journal of Parapsychology em 2007 compara as duas explicações: a paranormal e a psicológica, que inclui o efeito Barnum e a leitura fria.
Isso quer dizer que o tarô é “mentira”? Não necessariamente. Quer dizer que a força do tarô não está em adivinhar. Está no que acontece quando uma pessoa olha para uma imagem e pensa sobre a própria vida. É uma diferença importante — e libertadora.
Mitos sobre as cartas


“A Morte significa que alguém vai morrer”
Nos livros mais antigos, como o de Waite (1910), a carta já aparecia ligada a “fim” e “destruição”. Mas, na prática moderna do tarô, ela é quase sempre lida de forma simbólica: fim de um ciclo, transformação, mudança que abre espaço para algo novo. No Rider–Waite–Smith, repare no sol nascendo entre as torres ao fundo. Usar essa carta para “prever” a morte de alguém só causa medo e não ajuda ninguém a pensar.
“O Diabo é sinal de coisa demoníaca”
O Diabo costuma ser lido como apego, vício, medo ou uma relação que prende. No desenho de Pamela Colman Smith, as correntes no pescoço das duas figuras são largas: dava para tirá-las. A carta fala muito mais de escolhas humanas do que de forças sobrenaturais.
“Cartas invertidas são sempre ruins”
Muitos leitores nem usam cartas invertidas. Quem usa costuma lê-las como energia bloqueada, atrasada ou voltada para dentro, e não como o “lado mau” da carta.
“Você precisa ganhar o seu primeiro baralho”
É uma superstição moderna, que não aparece em nenhuma tradição antiga do tarô. Leitores profissionais costumam dizer o contrário: escolha um baralho cujas imagens conversem com você. Esta matéria reúne opiniões de leitoras sobre o assunto.
Então, para que serve o tarô?
No século XX, autores como Carl Jung viram nos arcanos maiores imagens arquetípicas, símbolos que aparecem em mitos e sonhos de muitas culturas. A partir dos anos 1980, leitoras e escritoras como Mary K. Greer e Rachel Pollack popularizaram o tarô como ferramenta de autoconhecimento. Falamos de Pollack no artigo sobre a Bíblia Clássica do Tarot.
Nesse uso, a pergunta muda. Em vez de “o que vai acontecer?”, passa a ser “o que essa imagem me faz perceber sobre a minha situação?”. Uma pesquisa qualitativa feita com mulheres que usam o tarô para reflexão, na Universidade de Victoria, no Canadá, mostrou que elas usavam as cartas para ganhar novas perspectivas, pensar em planos de ação e encontrar algum senso de ordem em momentos difíceis. Veja a pesquisa.
Ou seja: o mesmo efeito psicológico que explica por que as leituras “acertam” é o que torna o tarô útil para pensar. Ele funciona como um espelho de símbolos. O valor está no que você enxerga nele.
E muita gente usa o tarô só por diversão, sem levar ao pé da letra. Numa pesquisa do Pew Research Center feita nos Estados Unidos em 2024, 11% dos adultos disseram consultar cartas de tarô pelo menos uma vez por ano. Quem usa tarô, astrologia ou vidência por diversão é o dobro de quem diz usar porque acredita receber orientação. Veja a pesquisa.
Como reconhecer um golpe

O tarô em si não é golpe. Mas, como em qualquer área em que as pessoas chegam fragilizadas, existem golpistas. Desconfie quando alguém:
- promete resultado garantido, como “trazer a pessoa amada em 7 dias”;
- diz que viu “trabalho”, “maldição” ou “inveja” nas cartas e cobra para desfazer;
- usa o medo para pressionar: “se não fizer agora, vai piorar”;
- pede cada vez mais dinheiro, dados bancários ou senhas;
- diz para você largar o tratamento médico ou psicológico, ou para tomar uma decisão jurídica ou financeira só pelas cartas.
Uma boa leitura deixa você mais clara e mais dona das suas escolhas, nunca com mais medo. O tarô pode ser companhia para pensar, mas não substitui médico, psicólogo, advogado ou orientação financeira.
Exercício: uma leitura honesta
Experimente perceber, na prática, de onde vem o “acerto” de uma carta.
- Pense numa situação concreta da sua vida.
- Tire uma carta e escreva só o que você vê: cores, gestos, objetos, cenário.
- Agora escreva o que essa imagem fez você lembrar da sua situação.
- Compare as duas listas. A primeira é a carta. A segunda é você.
Quase sempre, o que importa está na segunda lista. É por isso que o tarô funciona tão bem como ferramenta de reflexão — e é por isso que você não precisa ter medo dele.
Perguntas frequentes
O tarô é verdade ou mito?
Depende do uso. Não há evidência científica de que o tarô preveja o futuro, e muitas histórias sobre a sua origem, como a egípcia e a cigana, são mitos. Mas como linguagem simbólica para refletir sobre a própria vida, o tarô tem valor reconhecido por muitas pessoas que o usam para autoconhecimento.
O tarô veio do Egito?
Não. O tarô surgiu no norte da Itália, por volta de 1440, como jogo de cartas. A ideia de uma origem egípcia foi lançada por Antoine Court de Gébelin em 1781, sem nenhuma prova.
A carta da Morte no tarô significa morte?
Na prática moderna do tarô, não. A carta da Morte é lida como fim de um ciclo, transformação e recomeço, e não como a morte literal de alguém.
Posso comprar meu próprio baralho de tarô?
Pode. A ideia de que o primeiro baralho precisa ser um presente é uma superstição moderna, sem base nas tradições históricas do tarô.
O tarô não precisa de mitos para ser fascinante. A história real — um jogo de cortes italianas que virou, séculos depois, uma das linguagens simbólicas mais usadas do mundo — já é extraordinária. Ler as cartas com curiosidade, senso crítico e sem medo é a melhor forma de honrá-la.
