Se você já tirou uma carta de tarô, é muito provável que tenha olhado para um desenho de Pamela Colman Smith. O homem que carrega dez bastões, o coração atravessado por três espadas, a figura que cai da torre: essas imagens se tornaram o “rosto” do tarô no mundo inteiro. Mesmo baralhos novos, com outro estilo, costumam repetir as cenas que ela criou.

Durante décadas, porém, o baralho foi chamado de “Rider-Waite”: o nome da editora e o do ocultista que o idealizou. O nome da artista ficou de fora. Hoje, cada vez mais leitores, estudiosos e editoras usam “Rider–Waite–Smith” — e este artigo conta por quê.

Uma vida entre Londres, Jamaica e Nova York

  1. 1878Nasce em Londres, em 16 de fevereiro, filha única de pais norte-americanos. A infância se divide entre Manchester, a Jamaica e Nova York.
  2. 1893–1897Estuda arte no Pratt Institute, no Brooklyn, com o pintor e educador Arthur Wesley Dow. Sai sem diploma, após a morte da mãe e problemas de saúde.
  3. 1899Publica Annancy Stories, contos de tradição jamaicana que ela recontava e ilustrava. Volta para a Inglaterra e se aproxima da companhia do Lyceum Theatre.
  4. 1901Entra na Ordem Hermética da Aurora Dourada (Golden Dawn), apresentada por W. B. Yeats. Ali conhece Arthur Edward Waite.
  5. 1907Expõe pinturas e desenhos em Nova York, na galeria de Alfred Stieglitz.
  6. 1909Desenha as 78 cartas do tarô, publicadas em dezembro pela editora William Rider & Son.
  7. 1911Converte-se ao catolicismo. Mais tarde, muda-se para a Cornualha.
  8. 1951Morre em Bude, na Cornualha, em setembro, aos 73 anos, com dívidas e pouco reconhecimento.

Essa linha do tempo segue a biografia reunida na Wikipédia e a reportagem da Hyperallergic sobre a exposição dedicada a ela pelo Pratt Institute em 2019. Leia a reportagem.

Teatro, contos e a revista The Green Sheaf

Em Londres, Pamela foi acolhida pelo grupo do Lyceum Theatre, liderado pela atriz Ellen Terry e pelo ator Henry Irving — o administrador do teatro era Bram Stoker, autor de Drácula. Ela viajou com a companhia e trabalhou com figurinos e cenários. Foi Ellen Terry, segundo a tradição, quem lhe deu o apelido de “Pixie”. Anos depois, Pamela ilustraria o último romance de Stoker, The Lair of the White Worm (1911).

Ela também era conhecida por contar histórias em público, vestida a caráter, e por reuniões em seu estúdio que juntavam artistas, escritores e ocultistas. Em 1903, criou a revista The Green Sheaf, com colaborações de nomes como Yeats, e depois uma pequena editora que publicava sobretudo autoras.

Pintar a música: a exposição com Stieglitz

Pamela dizia ver imagens ao ouvir música, e pintava essas visões enquanto escutava música, de Beethoven a canções populares. Esse tipo de percepção, em que um sentido desperta outro, costuma ser associado à sinestesia.

Esse trabalho chamou a atenção de Alfred Stieglitz, fotógrafo e galerista nova-iorquino. Em 1907, ele abriu na sua galeria — conhecida como “291” — uma exposição com 72 desenhos dela. A National Gallery of Art descreve essa mostra como o início de uma nova fase na galeria, que nos anos seguintes apresentaria artistas modernos europeus ao público norte-americano. A galeria, até então, era dedicada à fotografia: Pamela foi a primeira artista não fotógrafa a expor ali.

Um detalhe importante: quando desenhou o tarô, Pamela já era uma artista com carreira própria, exposições e publicações. Ela não era apenas uma ilustradora contratada para executar ideias alheias.

O tarô de 1909

Em 1909, Waite convidou Pamela para ilustrar um novo baralho. Ela fez os 78 desenhos em cerca de seis meses, entre abril e outubro, e o baralho foi lançado em dezembro pela editora William Rider & Son, de Londres. No ano seguinte, saiu o livro de Waite, The Pictorial Key to the Tarot, com as cartas reproduzidas.

A divisão de trabalho é o ponto mais interessante dessa história. Waite definiu o sistema simbólico e deu instruções detalhadas principalmente para os 22 arcanos maiores. Já nos arcanos menores, Pamela teve muito mais liberdade e criou a maior parte das cenas.

E aqui está a grande revolução. Nos tarôs mais antigos, como o de Marselha, as cartas numeradas mostravam apenas os símbolos do naipe repetidos: três espadas, cinco copas, oito moedas. Pamela transformou cada uma delas em uma cena com pessoas, gestos e emoções. É por isso que um iniciante consegue “ler” o Cinco de Copas olhando a figura curvada diante das taças derramadas, sem decorar uma lista de significados. No artigo sobre a Sacerdotisa, mostramos como essa leitura pela imagem funciona.

Cada carta traz um pequeno monograma: as letras P, C e S entrelaçadas. Segundo a Hyperallergic, ela criou essa assinatura ainda estudante, em um exercício de Arthur Wesley Dow, e a manteve em toda a sua obra.

Pesquisadores também acreditam que pessoas do círculo de Pamela serviram de modelo para algumas cartas: a atriz Ellen Terry seria a Rainha de Paus, e a atriz e ocultista Florence Farr, a figura do Mundo. São hipóteses, não fatos documentados, mas mostram como o baralho nasceu de um meio artístico vivo.

Rainha de Paus do Rider–Waite–Smith: mulher coroada no trono, com um bastão e um girassol, e um gato preto aos pés.
Rainha de PausInspirada em Ellen Terry, segundo uma hipótese conhecida.
O Mundo do Rider–Waite–Smith: figura dançando dentro de uma coroa de louros, cercada por quatro criaturas nos cantos.
O MundoAssociado a Florence Farr por alguns pesquisadores.

A influência do tarô Sola Busca

Pamela não inventou tudo do zero. Uma das suas fontes foi o tarô Sola Busca, gravado na Itália por volta de 1491 e hoje guardado na Pinacoteca di Brera, em Milão. Ele é o mais antigo baralho completo conhecido em que as cartas numeradas têm cenas ilustradas — exatamente a ideia que ela levou adiante.

Fotografias desse baralho foram doadas ao British Museum pouco antes de 1909, e é provável que Waite e Pamela as tenham visto ali. A Public Domain Review observa que ela reaproveitou de perto a imagem de quase uma dúzia de cartas. Os exemplos mais citados são o Três de Espadas e o Dez de Paus. Veja também o verbete sobre o Sola Busca.

Três de Espadas do Sola Busca: um coração vermelho atravessado por três espadas.
Sola Busca, c. 1491Três de Espadas
Três de Espadas do Rider–Waite–Smith: um coração vermelho atravessado por três espadas, sob nuvens de chuva.
Rider–Waite–Smith, 1909Três de Espadas
Dez de Espadas do Sola Busca: um homem curvado carregando um feixe de dez espadas.
Sola Busca, c. 1491Dez de Espadas
Dez de Paus do Rider–Waite–Smith: um homem curvado carregando um feixe de dez bastões em direção a uma casa.
Rider–Waite–Smith, 1909Dez de Paus

Repare no segundo par: a postura do homem curvado sob o peso é praticamente a mesma, mas Pamela trocou as espadas por bastões. Ela não copiava; traduzia. Pegava uma imagem antiga e a encaixava no sistema simbólico do novo baralho.

Esquecimento e redescoberta

Depois da Primeira Guerra Mundial, o gosto do público mudou, e Pamela teve dificuldade para vender seu trabalho. Viveu com pouco dinheiro na Cornualha e morreu em 1951, em Bude. Seus bens foram leiloados para pagar dívidas, e o local exato do seu túmulo é desconhecido.

Enquanto isso, o baralho que ela desenhou se espalhava pelo mundo. A partir dos anos 1970, com novas edições e o crescimento do interesse pelo tarô, ele se tornou o mais usado do planeta — mas quase sempre com o nome “Rider-Waite”. Em 2009, no centenário do baralho, foi lançada uma edição comemorativa em homenagem a ela. A Hyperallergic defendeu que o nome correto do baralho é Rider–Waite–Smith.

Nos últimos anos, exposições, biografias e livros ilustrados recuperaram sua trajetória, e obras dela estão em coleções como o Smithsonian American Art Museum. Chamar o baralho de Rider–Waite–Smith, como fazemos no DarkPinup Arcana, é um pequeno gesto de justiça histórica.

Como ler as cartas pensando nela

Pamela era uma artista de teatro. Muitas cartas parecem cenas de palco: um cenário simples, uma figura central, um gesto claro. Experimente ler assim:

  1. Tire uma carta dos arcanos menores e imagine que a cortina acabou de abrir.
  2. Quem está em cena? O que essa pessoa está fazendo com as mãos e com o corpo?
  3. Como é o cenário: interno ou externo, dia ou noite, calmo ou agitado?
  4. Se a cena continuasse, o que aconteceria no momento seguinte?
  5. Relacione essa “próxima cena” com a sua pergunta.

Esse jeito de ler aproveita exatamente o que Pamela trouxe ao tarô: cartas que contam histórias.

Perguntas frequentes

Quem desenhou o tarô Rider-Waite?

As 78 cartas foram desenhadas por Pamela Colman Smith (1878–1951), em 1909, a partir do sistema simbólico de Arthur Edward Waite. O baralho foi publicado pela editora William Rider & Son. Por isso, hoje muitos o chamam de Rider–Waite–Smith.

Por que o baralho se chama Rider–Waite–Smith?

“Rider” é a editora que o publicou, “Waite” é o ocultista que o idealizou e “Smith” é Pamela Colman Smith, a artista que criou as imagens. O nome “Rider-Waite”, usado por décadas, deixava a artista de fora.

O que é o monograma nas cartas do tarô?

É a assinatura de Pamela Colman Smith: as letras P, C e S entrelaçadas. Ela aparece em quase todas as cartas do baralho e em outras obras da artista.

Pamela Colman Smith fazia parte da Golden Dawn?

Sim. Ela entrou na Ordem Hermética da Aurora Dourada em 1901, apresentada por W. B. Yeats, e ali conheceu Arthur Edward Waite.

Pamela Colman Smith deu ao tarô algo que ele não tinha: cenas humanas, cheias de gesto e emoção, que qualquer pessoa pode começar a ler. Da próxima vez que embaralhar suas cartas, procure o pequeno monograma no canto. É a assinatura de quem nos ensinou a olhar.

Estudar as cartas →Tirar a carta do dia →

← Voltar ao Blog